Futebol Saudade

Desde que, há mais de 100 anos, se fez o primeiro campeonato de futebol em Portugal, que a "passerelle", que é a vida desportiva, viu desfilar milhares de clubes.
Uns ainda hoje existem, pujantes e vigorosos até, outros, embora perdendo protagonismo, ainda resistem. Mas muitos ficaram pelo caminho.
Passaram ao futsal, deixaram o desporto, ou fecharam mesmo as portas. É dos que partiram (e não só), que aqui vamos tentar deixar a memória.




domingo, 3 de abril de 2016

Morais – a história de um cachecol



Comecemos por situar Morais, freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros, cujas origens remontam ao princípio da nacionalidade, e que ostenta a tese de alguns académicos dedicados à formação do mundo, designando Morais como o umbigo do mundo (ver aqui).

Mas o que aqui nos trouxe, foi aprofundar o seu associativismo, dinâmico e diverso, como o comprova o actual grupo de teatro.

Sendo uma comunidade a rondar os 700 habitantes, tantos quantos os de há 150 anos, é latente o seu dinamismo e inconformismo, como atestam as 3 colectividades que já animaram o futebol do distrito, e as tardes da freguesia, e agora o seu grupo de teatro, nascido de uma reflexão dos seus!
São elas até, a demonstração cabal que o unanimismo nunca foi factor de evolução, pois a fusão aqui verificada tirou a rivalidade, o entusiasmo, e matou a competição. Hoje vive a saudade, com os veteranos a mimar os craques.

Mas nestes lugares isolados, longe uns dos outros, com uma população activa longe do berço, não é fácil manter uma equipa de futebol. Quer porque faltem os atletas, quer porque escasseiem os meios para assegurar a presença nas competições.


Mas em Morais o bichinho do futebol moía, e logo alguns se abalançaram a criar um clube. Foi o Águias Futebol Clube, que surge no primeiro campeonato de Bragança com 2 séries. Chamava-se Águias, mas equipava de verde e amarelo, as cores do concelho.








Mas as rivalidades internas, com os apaniguados divididos por águias e leões, depressa levam à criação de um novo clube na terra! A Associação de Morais.
700 habitantes e 2 clubes, era dose. Mas este novel clube, nascido para fazer birra aos da águia, tinha o “patrocínio” da autarquia, que lhes deu um substancial subsídio, muito mais chorudo que aos dos Águias. Foi o pretexto para estes cerrarem os dentes, e mostrassem quanto valiam. Decretaram a morte desta Associação, que logo deixou o futebol sénior, enveredando pela Formação. Mas foi sol de pouca dura. Fechou as portas 2 ou 3 anos após.






Contudo, os homens do futebol não podem estar muito tempo sem o jogarem, e eis que um dos seus, desde sempre ligado a este desporto, logo trata de criar um clube. Novo, para não levar consigo aquelas rivalidades anteriores. Nascia, pela mão de Mário Teles, o irreverente Morais Futebol Clube, que ora jogava, ou não.




Numa das suas presenças, sagrou-se campeão distrital pela primeira vez, porque não levava desaforos para casa!
Em 2006/07 chegou à última jornada a jogar na casa do adversário, que era o candidato a campeão, tendo até uma supremacia técnica reconhecida pelos de Morais, que eram os segundos.
Mas a soberba matou-os. Fizeram cachecóis a celebrar o campeonato, e apresentaram-no antes do jogo.
Aquele dirigente, velho homem do futebol, conhecedor de quão volúveis são os balneários, mandou mostrar o dito cachecol aos seus atletas. Foi doping, em dose redobrada. Começado o jogo, depressa marcaram 3.
Os da Mãe D’Água ainda empataram, mas os cachecóis acabaram reciclados.




Hoje, o campo de Santo André, um magnifico recinto, está sem préstimo, já que as rivalidades foram anestesiadas com uma fusão, que nunca e em lado algum resultou.

Um dia destes vamos ver outra vez camisolas viçosas a enfeitar o campo!