Futebol Saudade

Desde que, há mais de 100 anos, se fez o primeiro campeonato de futebol em Portugal, que a "passerelle", que é a vida desportiva, viu desfilar milhares de clubes.
Uns ainda hoje existem, pujantes e vigorosos até, outros, embora perdendo protagonismo, ainda resistem. Mas muitos ficaram pelo caminho.
Passaram ao futsal, deixaram o desporto, ou fecharam mesmo as portas. É dos que partiram (e não só), que aqui vamos tentar deixar a memória.




quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Futebol em Campanhã
















Campanhã é, nos inícios dos anos 20 do século XX, uma populosa freguesia da cidade, onde imensos bairros albergam a grande massa humana que labuta nas suas fábricas, armazéns e outras instalações industriais.
Por isso a febre do futebol que, por estes anos atravessa o país, também aqui se faz sentir.
Um grupo de rapazes entusiastas mas modestos, criam o primeiro clube organizado (?), destas bandas. Dão-lhe o sugestivo e bonito nome de Miraflor Futebol Clube. Era o nome da rua onde a maioria vivia. Mas o clube não crescia, dadas as insuficiências financeiras, e levaram outros à criação de um novo clube, que pudesse chegar ao futebol a sério. Nascia o Clube Desportivo de Portugal. Mas cedo chegou uma cisão e por isso,  os líderes das respectivas facções, promovem a inscrição de cada uma delas, com o peculiar nome de Clube Desportivo de Portugal nº 1 e Clube Desportivo de Portugal nº2!
A Associação faz um inquérito e, conclui da justeza do direito ao nome, de cada um dos grupos, decidindo contudo que o nome só pode pertencer a um.
Surge assim o Clube Desportivo do Porto e o Grémio Desportivo Portuense. Mais tarde, este seria o Clube Desportivo de Portugal dos nossos dias.
Mas a rivalidade acentua-se entre estes 2 únicos clubes, existentes nesta populosa freguesia, que dispõe dos seus recintos desportivos em Benjóia e Bela Vista (1). Os clubes passam a ser conhecidos pelos favaios ou azeiteiros, numa clara alusão ao negócio dos seus presidentes: o sr. Couto do Desportivo do Porto, vendia este excelente aperitivo, e o senhor Nogueira do Desportivo de Portugal, era negociante de azeites.
Entretanto, surgiria em 1935 um novo clube na freguesia, o Faísca, clube dos empregados da UEP (União Eléctrica Portuguesa e Electro Del-Lima), e com sede na rua do Freixo. (2)

Mas o Faísca cresce, com o apoio da empresa a que está ligado, e o seu presidente compra o alugado campo do Desportivo do Porto, o campo da Bela Vista. O Clube Desportivo do Porto tem de mudar de casa. Aluga um terreno que adapta, na rua Nau Trindade, e em 1937 atribui-lhe o nome de um seu atleta falecido: Joaquim Soares Martins. Este recinto (3), será posteriormente usado pelo Bonfim Futebol Clube, clube entretanto fundado, e que em 1946/47 chega aos distritais.
Mas o agora campo do Faísca passa a ter um uso diversificado, pois logo em 1936 o Sport Clube do Porto joga ali o seu hóquei em campo.
Hoje, o recinto do jogo ainda lá esta “intacto”, à espera duma daquelas urbanizações sem verde, em que a cidade é fértil.

Mas a caminhada do futebol por aqui, desde cedo que, junto à estação de Campanhã, vê surgir um campo de futebol, que ainda hoje lá está. Em agonia, mas ainda servindo ao velhinho Desportivo de Portugal.
Conhecido agora por Ruy Navega, começou por ser o campo de Benjóia, já que o nome remoto do lugar era Benjói. (curiosamente, por estes dias, diz-se Bonjóia).

A certa altura da sua vida, passou a servir ao grupo desportivo de uma fábrica de esmaltagem das imediações, a Mário Navega, e por isso passou a ostentar o nome do seu presidente, e filho do dono da fábrica. Já agora, neto também do fundador dela. O senhor Minchin.
Por vezes aparece a citação do campo Mário Navega, mas isso foi nome que nunca teve. Trata-se apenas de a relacionar com a fábrica, sua proprietária.
Extinto o clube, acabada a fábrica, o Desportivo voltou às origens.

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(1) - O Clube Desportivo do Porto aluga um terreno (1925) na desaparecida travessa da Fonte Velha, e é ali que instala o seu campo da Belavista. Mas também ali não teria vida fácil, já que o presidente do Faísca, compraria o campo para o seu clube de electricistas.

(2) - vinha fazer companhia ao clube dos Ferroviários, mais ligados a outros desportos, e com o futebol nos corporativos, que jogava (após 1940), no seu campo de Vila Meã, hoje ocupado pela auto-estrada.

(3) - Acabado o Bonfim para o futebol, foi o terreno destinado à finada Escola de Oliveira Martins. Posteriormente instalou-se ali a decorativa Soares dos Reis, e o que resta do campo está actualmente à venda, para mais um provável caixote com muita gente.