Futebol Saudade

Desde que, há mais de 100 anos, se fez o primeiro campeonato de futebol em Portugal, que a "passerelle", que é a vida desportiva, viu desfilar milhares de clubes.
Uns ainda hoje existem, pujantes e vigorosos até, outros, embora perdendo protagonismo, ainda resistem. Mas muitos ficaram pelo caminho.
Passaram ao futsal, deixaram o desporto, ou fecharam mesmo as portas. É dos que partiram (e não só), que aqui vamos tentar deixar a memória.




domingo, 3 de fevereiro de 2019

Leiria - clubes na cidade



Leiria e o futebol.


Não é Leiria uma cidade muito vocacionada para o futebol. Desde a febre dos anos 20, quando por muitas cidades, vilas e aldeias, despontava uma enorme vontade de jogar o jogo, que aqui em Leiria a acalmia era grande.

Mas a cidade já dispunha de relevantes colectividades, embora voltadas para outros desportos e actividades culturais. Eram os Ginásios que se assumiam.
O Sportivo Liz, fundado em 1920, e o Leiria Ginásio, mais novo um ano.
Os primeiros eram popularmente conhecidos por “broas”, enquanto que os do Leiria Ginásio, pela sua natureza social, eram designados pelos “papo-secos”.

Foi em 1925 que sucumbiram ao futebol. Diga-se de passagem que foram na onda reformista de alguns notáveis, sublimados nas páginas da “Semana Desportiva”, jornal local dedicado ao desporto. Fez este uma tão intensa campanha, que em 1929 se organizava a associação de futebol do distrito.

Foram 10 as equipas presentes na reunião preparatória, sendo que da cidade eram 3. Aos Ginásios juntou-se a Associação Académica (do Liceu Rodrigues Lobo), que só muitos anos mais tarde se filiaria.

O primeiro espaço na cidade, para se jogar futebol, foi improvisado no jardim público em 1925. Era chamado de “campo do Passeio” e ficava junto ao rio. Assim o contaria (30 Novembro 1939), o presidente do Liz, ao jornal “Região de Leiria”, salientando que se promoveu um festival no jardim, angariando receitas para os clubes, que permitiu construir uma vedação ao campo, em 1926, para que os jogos a realizar tivessem cobrança de entradas.
Duraria até 1934 este campo, quando foi desactivado. Serviu aos clubes de Leiria no início do futebol federado (1929 a 1934).
O Leiria Ginásio, que era o arrendatário do campo, depois deste último ano deixou aquele, como lembra o jornal da cidade Linha Geral (25 Maio 1936).
Desaparecia o futebol na cidade por 10 anos, aparecendo então uma equipa em Marrazes, fundada em 1936, mas que só se filiaria em 1944, e outra nas Sismarias.

Não terá sido por acaso que criada a Associação Distrital, esta logo passasse para as Caldas da Raínha, como forma de fugir à inacção que a sede do distrito inculcou no futebol do distrito. Daqui só sairia alguns anos depois (1947), e por decreto governamental!

É no ano de 1936 que se improvisa um campo em Marrazes, passando a ser conhecido por campo da Mata, em terrenos do Estado (Ministério da Guerra), que o viria a reivindicar em 1947, levando o Marrazes para um novo campo na Estrada de S. Tiago, onde esteve por largos anos.
Curiosamente, foi também em 36 que surge noutra ponta da cidade, um novo clube – União Sismariense – com um campo de futebol. Era o campo da Estação (Leiria-Gare).
Entretanto o jornal Região de Leiria, a partir de 1937, passa a invocar a necessidade da cidade contar com um campo de futebol, como forma de dinamizar a cidade. São variadas as notícias e comentários publicados, culminando mesmo a situação com a elaboração de um projecto para o referido campo, que chega a ser enviado a Lisboa (Julho de 1937) para aprovação. Passariam muitos anos até o estádio municipal ser uma realidade.
Em 17 de Abril de 1947, na Quinta do Cabeço, adquirida pela Câmara, e que ficava entre o castelo e o rio Lis, começam as obras de construção do estádio municipal. Foi o presidente de então, homem com sensibilidade para o futebol, Magalhães Pessoa, quem promoveu esta construção, que também na altura foi alvo de muitas críticas, salientando que não havia gente nem clubes para o encher (Região de Leiria 24 Dezembro 1951). Hoje, passa-se o mesmo. Entretanto o actual estádio, tem como patrono aquele presidente percursor.

Saliente-se que na cidade, o futebol foi sempre subalternizado por outras actividades desportivas, nomeadamente pelo basquete, que se jogou em concorridos campeonatos citadinos, fazendo-se do parque desportivo da Comissão Municipal de Turismo, remodelado em Outubro de 1937, os palcos de eleição daqueles campeonatos.

No panorama desportivo destes tempos, surgiria em 1936 nas Sismarias, um clube de futebol popular, o União Sismariense, que construiu um campo na estação. Era o campo de Leiria-Gare, que não terá durado muito, pois a sua citação logo terminou.

Também nesta altura (1936), noticiava o Região de Leiria (6 Fevereiro 1936), que um grupo de desportistas da cidade estava em negociações, para a filiação no Sporting de Lisboa, do clube que têm em organização (Sporting Clube Leiriense). O objectivo deste clube era o basquetebol e outras actividades desportivas, onde se não inseria o futebol. Este só chegaria ao clube em 1947, e por pouco tempo.

A título de curiosidade, saliente-se que no futebol oficial, ao nível sénior, foram até hoje 198 clubes os que passaram por este. Da cidade foram apenas 8, e a maioria com passagens fugazes.
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Recortes

Linha Geral 18 Outubro 1931
A Comissão de Iniciativa foi autorizada a contratar a construção imediata do novo Parque da Cidade. Teremos dentro de 2 anos o novo parque com balneário, piscina, ponte, açude, campo de jogos, e tudo o mais projectado.
RL 6 Fevereiro 1936
Um grupo de desportistas está em negociações com o Sporting Clube de Portugal, para a filiação de um novo grupo de basquetebol em criação. Seria o Sporting Clube Leiriense.
RL 19 Março 1936
O Sporting Clube Leiriense desloca-se a Maceira-Liz, para o seu 1º jogo de basquete.
Linha Geral 25 Maio 1936
Depois do Leiria Ginásio acabar com o campo que possuía, de diminutas dimensões e pantanoso, Leiria está sem campo. Começa aqui o pedido por um novo campo, e na circunstância lançava-se os olhos para uma quinta adquirida pelo Estado, para instalar uma escola-prisão.
LG 18 Outubro 1936
O Clube União Sismariense com sede no Bairro Leiria-Gare, realizou no domingo 11, um encontro para inauguração do seu campo de jogos, e apresentação do seu11.
Região de Leiria 10 Dezembro 1936 (pg 4)
        Por iniciativa de um grupo de jogadores desta cidade, tivemos ocasião de ver, no dia 29 de Novembro, no campo da Estação, um encontro de Desporto-Rei, entre o Clube União Sismariense e o Misto de Leiria. (segue-se a listagem dos planteis e incidências do jogo)
RL 21 Janeiro 1937 (pg 2)
        O basquetebol ainda se joga no Campo do Parque (Sporting Leiriense vs Leiria Ginásio)
RL 13 Março 1937 (pg 1)
Leiria não tem campo de futebol. Perspectiva-se a sua construção.
Fala-se do novo campo (pg3)
RL 20 Março 1937
Diz o jornal que se ultima a planta de construção do campo.
RL 3 Julho de 1937
O novo campo terá uma capacidade para 20 mil espectadores
RL 10 Julho 1937
Seguiu para aprovação em Lisboa, a plante do estádio municipal. 600 contos de custo.
RL 7 Outubro 1937
Totalmente remodelados os campos de ténis e basquete, no parque desportivo da Comissão Municipal de Turismo.
RL 14 Outubro 1937
Festa do 1º ano do União Sismariense
RL 11 Novembro 1937
O antigo campo dos Marrazes, devidamente reparado, serve a um jogo entre o clube local, GD Floresta, e um misto de Leiria.
RL 30 Novembro 1939
Entrevista com antigo presidente do Ginásio Liz, sobre o aparecimento do futebol na cidade, e o campo de futebol feito em 1925, e vedado em 1926, no Jardim Público.
RL 29 Fevereiro 1940
Fala do imobilismo em que está o processo do campo de jogos, cujo projecto dorme na capital.
O Sismariense joga no campo da Estação com o JOC
RL 22 Março 1945
Macieira tem campo de futebol, onde se joga um amigável com o Atlético Marinhense, que ali defronta o Sporting de Macieira, formado por empregados da fábrica de cimentos.
RL 30 Agosto 1945
Inaugura-se um Lar nos Cimentos Lis, com jogo com o Sporting de Lisboa, no campo de Maceira.
A 16 de Setembro começa o campeonato (zona norte), e o Sporting da Maceira joga em Alcobaça com o Comércio & Indústria. Perde 6-2.
RL 1947 (data?)
O campo da Mata (Marrazes) pertença do Ministério da Guerra está em vias de ser revertido para aquele ministério, ficando assim o clube sem campo. Por isso se apela à ajuda de construção de um novo local.
O Mensageiro 21 Abril 1949
Estádio Municipal de Leiria. Fala-se da escritura de compra da Quinta do Cabeço por 670 contos.
RL 30 Abril 1949
Começam a 17 os trabalhos de construção do estádio municipal, nos terrenos adquiridos na Quinta do Cabeço, entre o castelo e o rio Liz. A Câmara é presidida por Magalhães Pessoa.
RL 24 Dezembro 1951
Questiona-se o porquê da construção do estádio municipal
RL (??) Dezembro 1952
Joga-se no estádio municipal (presume-se que no campo principal) para a 3ª Divisão Nacional. É o Marrazes que ali recebe o seu adversário de série.

RL 15 Setembro 1962
Coliponense no futebol de 5, infantil
RL 2 Fevereiro 1963
Comissão Organizadora do Coliponense publica um comunicado, onde se dá conta da aprovação dos estatutos.
RL 9 Fevereiro 1963
Dá-se conta do ressurgimento do Sporting Leiriense para o futebol
RL 13 Abril 1963
O Coliponense anuncia a sua estreia no futebol, jogando a Taça Peniche da AFL, defrontando a 28 o Bombarralense
A sua sede é na rua Barão Viamonte, Leiria
RL 10 Agosto 1963
O jornal faz um artigo de apreciação e exortação dos clubes da cidade, visando a sua fusão.