Futebol Saudade

Desde que, há mais de 100 anos, se fez o primeiro campeonato de futebol em Portugal, que a "passerelle", que é a vida desportiva, viu desfilar milhares de clubes.
Uns ainda hoje existem, pujantes e vigorosos até, outros, embora perdendo protagonismo, ainda resistem. Mas muitos ficaram pelo caminho.
Passaram ao futsal, deixaram o desporto, ou fecharam mesmo as portas. É dos que partiram (e não só), que aqui vamos tentar deixar a memória.




terça-feira, 23 de julho de 2013

o campo do Ameal



É uma história efémera de amores e ódios, que durou por quase 20 anos. Teve de tudo. Intriga, paixão, ganância, e um final trágico.
Afinal ninguém o vendeu, também ninguém o comprou, e pelo meio ficaram os mesmos de sempre. Os medíocres desta terra.

Mas afinal como tudo começou?

Foi o Progresso, genuíno clube de Paranhos, que tinha então a sua sede no 68 da rua Carlos da Maia, bem perto do descampado de Arca D’Água.
Era aqui que a juventude de então, dava largas ao seu entusiasmo pelo futebol.
Local “adequado” ao futebol, tinha acrescidas vantagens sobre outros. Dispunha de água em abundância, o que o dotava dos convenientes “balneários”, que noutros lados não se tinham.
A utilização devia ser intensa, a avaliar pelas convocatórias que os jornais da cidade faziam dos frequentes desafios populares.
Mas este futebol sempre gerou anti-corpos, que debaixo de um fingimento muito próprio, sempre trazia melhores “alternativas”
É assim que o Primeiro de Janeiro, em 1919, sugere em artigo que publica, que devia fazer ali a tão indispensável piscina municipal, equipamento fundamental ao exercício físico da juventude, e usufruindo das excepcionais disponibilidades em água com fartura, e ainda porque assim se erradicava dali o incomodativo futebol.

Mas os tempos passam, e de piscina nada. A revista O Sporting trás então (1922) à cena, novamente, o assunto. Publica uma acta da Câmara, onde se justifica a não construção daquele equipamento dados os elevados e insuportáveis custos para a autarquia.
Mas refere-se que a zona vai ser ajardinada, e contará até com um lago. Mais tarde, poderá este ser a piscina falada!

Entretanto o Progresso, clube de gente dinâmica e empreendedora, abalança-se à construção de um campo de jogos, que lhe possibilitasse outros voos (1922).
Na época anterior tinha começado a competir na Associação Distrital, onde se filiara.
É então que em 10 de Junho de 1923 procede à inauguração do seu campo.
São 3 equipas da cidade que estão presentes no seu festival. Salgueiros, Boavista e Porto.
Logo elege em AG uma Comissão de Melhorias, que haveria de dotar o campo de condições adequadas. Nascia o estádio do Ameal. Aqui se jogaram desafios internacionais da selecção portuguesa, com vitórias retumbantes.
Fica o campo à face da rua do Amial. Tinha também como limite a travessa do Amial, mais tarde designada por “Sport Progresso”, e hoje inexistente.

Contam alguns, até invocando “argumentos” familiares, que o campo ficava onde hoje está o Colégio Luso-Francês. Não ficava. Este começou a funcionar em 1936, ocupando um palacete ali existente (e que ainda lá está), e o campo em 1938 ainda era usado no futebol nacional




Mas em 1934 o clube passa por uma grave situação financeira, que coloca tudo em jogo. Nunca se recuperará da situação. Assoberbado por dívidas, sem capacidade para manter o campo, já então em degradação, cria-se uma rábula, com o objectivo de encontrar interessados no campo.
As peripécias são profusamente “relatadas” num jornal da cidade, mas o Progresso não consegue competir nesse ano, pese a intervenção do governador civil, que nomeou uma comissão administrativa. A normalidade volta por poucos anos, até que surge o grande cisma, com o campeonato 37/38.
O regulamento não permite a partilha do mesmo campo por 2 clubes da mesma prova nacional. O Porto, não pode usar o Lima, e a Constituição limita substancialmente as receitas. Pensa no Ameal, e faz com o Progresso um contrato. Anuncia-o o Comércio do Porto de 1 de Janeiro de 1938.
Mas as arestas não foram limadas, e começa a guerra do diz que diz.

O Progresso acusa o Porto, através da Comissão do Campo, de pretender comprar uma das partes do campo. Este tinha 3 proprietários, e duas metades. Uma delas, que integrava a bancada, veria finalizar o arrendamento em Setembro.
Mas o Progresso diz que nunca cederá a outra parte, e como o pensado alargamento do campo nos terrenos traseiros à bancada, pensado pela Comissão, dizem, não terá viabilidade, pois a Câmara projecta uma avenida até ao “hospital da cidade” na Asprela, que se irá fazer.
A Comissão entretanto, publica um comunicado, dizendo que não tem intenções de compra do terreno, e que apenas sugeriu ao clube que fizesse o acordo apenas por uma ano.

Nesta guerrilha com um campo no meio, outro jornal da cidade faz o ponto da situação (Maio 1938), dizendo:

“No início da temporada, o Sport Progresso e o FC do Porto jogaram uma verdadeira cabra-cega devido ao campo do Amial.
O Progresso, conforme as negociações iam caminhando, caminhava também nas exigências. Por fim, interrompidas as negociações, os dirigentes do FCP ouviram das boas e bonitas, proferidas pelos dirigentes progressistas.

Os adeptos destes, instigados a defenderam-se de quem lhes queria o campo, reagiram a quente, e destruíram as bancadas, Também acabava o Ameal.

Foi a debilidade financeira do clube arrendatário, a cobiça dos proprietários, e o regulamento da prova 37/38, que lhe apressaram o fim.

Com muito sacrifício e dificuldade, abalançou-se o clube a encontrar alternativas, que surgem em 1947. Com a ajuda da Federação, consegue o Progresso instalar ainda na rua do Amial, mas agora do outro lado da Circunvalação. Longe das origens em Paranhos, mas ainda na cidade.
É este campo, também conhecido por campo do Amial, mas Queirós Sobrinho de seu verdadeiro nome,  que agora está impedido de usar, pois a sua exiguidade coloca-lhe condicionamentos. Contudo, as obras em curso vão fazê-lo retomar um trajecto digno, que os seus 107 anos lhe outorgam.

Entretanto, a avenida majestosa até ao hospital, ficou reduzida a uma insignificante rua que não chega a metade do percurso.
O estádio não deu mais proventos. Desportivos ou financeiros, e os seus terrenos acabaram numas urbanizações tristes e cinzentas.
Mas o local é achacado a histórias “desportivas”. Em 1938, o governo civil patrocinou a iniciativa de construção de um estádio distrital. A proposta vencedora implantava-o nas proximidades. Coisa ampla e sumptuosa, exactamente onde mais tarde, mas agora em muito menos terreno, se projectou o estádio do Salgueiros. Está lá um rústico e decorativo charco…

a Apresentação






















5 comentários:

Menthor disse...

Uma história que reflete uma realidade de outros tempos, que também se jogava...fora das quatro linhas. Soberbo.

Anónimo disse...

Excelente trabalho ! Parabéns ! Finalmente percebi a situação criada e os factos que entretanto aconteceram!

António Dias disse...

Não hà dúvida que se me dissiparam muitas dúvidas em relação a esta história que ouvi contar o meu pai e outros amigos mas este relato vai fazer-me continuar com a busca e aprofundar este estádio, assim como o campo da Rainha. Obrigado.
-António Dias

victor sousa disse...

sobre o campo do Amial ainda há muito a contar. Para começar a localização exacta, que nunca consegui encontrar nada que me definisse a localização.
O campo da rua da Raínha (Antero de Quental), ainda há pouco tempo lá estava a porta de entrada. A sua demolição deve-se à expansão da fábrica de Salgueiros, de que também ainda existe uma parede lateral na travessa do mesmo nome.

victor sousa disse...

Finalmente, e sem quaisquer dúvidas, é possível localizar o campo, a partir do levantamento mandado executar pela Câmara Municipal em 1940.

Ver "Fotografia aérea da cidade do Porto" - ver fiada 19, nº 423.