Futebol Saudade

Desde que, há mais de 100 anos, se fez o primeiro campeonato de futebol em Portugal, que a "passerelle", que é a vida desportiva, viu desfilar milhares de clubes.
Uns ainda hoje existem, pujantes e vigorosos até, outros, embora perdendo protagonismo, ainda resistem. Mas muitos ficaram pelo caminho.
Passaram ao futsal, deixaram o desporto, ou fecharam mesmo as portas. É dos que partiram (e não só), que aqui vamos tentar deixar a memória.




terça-feira, 22 de outubro de 2013

A História dos campos de futebol na Madeira


Esta breve abordagem que aqui se faz,  foi alvo em 1971 de uma publicação da AF do Funchal, a partir de um trabalho de Adelino Rodrigues, com grande desenvolvimento, conhecimento e profundidade.

Aqui, só queremos situar os diferentes palcos que foram servindo a um peculiar futebol, que tendo origens como os demais, teve (e tem) muitos clubes e entusiasmo, e que ainda perdura, reflectindo um particular modo de estar na vida.

Campo de Almirante Reis.

Ficando perto da ribeira de João Gomes, foi designado inicialmente por campo D. Campo I.
O espaço que foi o berço de muitos campeões, começou por ser terreiro militar, e a sua adaptação a campo de futebol, é mais uma consequência do espírito criativo que nos molda!
Ainda não havia República, e portanto o campo não homenageava o militar do 5 de Outubro, e já ali se jogava futebol formal.
O Grupo Português de Sport Marítimo, raiz do actual Marítimo, já por ali recebia os atletas estrangeiros, usualmente de barcos militares que ali aportavam.
Clube Sport Marítimo e Clube Sport Madeira, terão sido os mais acérrimos rivais, e seguidores dos ensinamentos dos marinheiros ingleses, que ali jogavam frequentemente.
Neste espaço, todo o fundamento do futebol da ilha se movimentou. Alguns chegaram até hoje, e outros foram ficando pelo caminho. É o caso do União e do Nacional nos primeiros, e do Operário Madeirense e do Operário Funchalense, do Insulano ou do Liberal, do Continental e de muitos outros de efémera duração e organização “ad-hoc”.
Mas quando a AF é criada, ainda vai ser ali que se jogará futebol oficial! Campo vedado primeiro com panos, e depois com madeira, assegurando o retorno do investimento. Foi assim que o futebol aqui nasceu.
Hoje, o local voltou à vocação primitiva: área verde.

Um campo que também acompanhou este pioneirismo, foi o campo da Achada, propriedade dos ingleses dos cabos submarinos, e que anualmente convidavam uma das equipas locais, para o tradicional jogo de futebol. Acabou transformado numa residência com grandes jardins.

Em Santa Cruz  havia também um recinto que o Santacruzense alugava por 500 escudos anuais, e usava nos jogos com aqueles que desafiava, quando ainda não era filiado. O peculiar terreno de jogo dava-lhe o nome: Campo Vermelho.

Campo de Tristão Vaz

É um pioneiro campo também, e que resultou do entusiasmo pelo futebol, além do Funchal.
Logo na viragem de 1900, alguns entusiastas moldaram a praia, e criaram um campo de futebol. Mas também moldaram a actual Associação Desportiva do Machico, que tem na origem o Clube de Futebol Os belenenses do Machico, e o Sporing do Machico. Mas estes, já vinham de clubes que aqueles cabouqueiros do campo erigido aí por volta de 1915, tinham criado: o Lusitânia FC, e o Machico FC.
Hoje, do primitivo campo resta o nome, que o Tristão Vaz recolheu-se para o interior, bem juntinho à ribeira.


Campo dos Barreiros

Foi o Clube Desportivo Nacional quem esteve na origem deste campo, que fica na freguesia de S. Martinho, arrabalde longínquo da cidade, e sem acessos para o espaço destinado ao campo. Isto nos longínquos anos 30 do século passado.  Agora chama-se estádio, e passou por algumas reconversões, mas o chão foi sempre o mesmo.
Quando os nacionalistas elegeram o espaço, tinham em mira criar um verdadeiro campo de futebol na ilha, até então servida por improvisos. Por isso puseram em campo toda a inventiva, e criaram títulos de empréstimo para a sua construção. Mas a empresa foi hercúlea, e o campo esteve em vias de desaparecer. As obras tiveram início em 1925, e 2 anos depois, em Junho, o campo estava “pronto”.
Remodelado em 1957, quando a sua propriedade era já do Estado, a quem o Nacional, num gesto nobre, dada a sua impossibilidade de o manter, havia entregue o campo, com a ressalva de que a ele não fosse dado outro uso, que não o desportivo.
Agora, vai na “terceira” construção.

Campo municipal de Santa Cruz

A ribeira de Santa Cruz, junta à costa, dispunha de um canavial, que as enxurradas por vezes alagavam. Feita uma muralha de protecção para regularização do curso da ribeira, pode o terreno ser aproveitado para construir um campo de futebol, feito a expensas do Santacruzense, nos anos 40. Progressivamente foram introduzidos melhoramentos no campo, que acompanharam a ascensão do clube, que em finais de 60 integrava a divisão de Honra.
Hoje, o futebol faz-se nas Eiras, e o canavial virou hotel.

Campo do Liceu

Quando se fez este campo de jogos, em 1942,  ele integrava o liceu construído nos terrenos do Hospital Militar, e servindo até então ao cultivo de cana-de-açúcar.
O Liceu designava-se por Jaime Moniz, e daí o nome popular atribuído ao campo. Hoje, a designação oficial é de Adelino Rodrigues, o homem do futebol que nos deixou a monografia dos recintos de futebol na Madeira, que serviram de guia a esta abordagem.

Campo da Imaculada Conceição

Foi nos finais de 50 que o Marítimo comprou estes terrenos, onde construiu este campo de apoio, que passou a ser reconhecido pela AF em 1966. Com vocação prioritária para a Formação e treino de seniores, foi melhorado e expandido com outro recinto. Deve o seu nome à data (um dia de Dezembro) em que se decidiu a compra do terreno.
Hoje, na sua vizinhança tem o Andorinhas o seu recinto de jogo.

Campo municipal em Santana

Do outro lado da ilha, e na onda de entusiasmo pelo futebol, também esta freguesia da Madeira cedo (1956), teve um campo de futebol, apesar de o seu clube de então (Grupo Desportivo Santanense) não estar filiada. O futebol de competição só chegaria aqui em 1979.
O recinto hoje ostenta, oficialmente, o nome de Manuel Marques da Trindade, um cidadão do concelho que presidiu à Câmara Municipal.

Campo de Infantaria 19

O recinto ainda lá está, agora usado pelos militares, para quem foi construído. Contudo, inicialmente serviu ao futebol federado e até ao corporativo.

Campo do Pomar, na Choupana

Começou a construção deste campo em 1966, numa zona de profunda vegetação, onde sobressaía o eucalipto, e nas propriedades do visconde do Cacongo. Foi seu mentor e financiador o Clube Desportivo da Choupana. O relevo da ilha condiciona os acessos, e hoje, como ontem, ainda é o Caminho do terço que conduz a este espaço, agora muito modernizado e ampliado, com o Cristiano Ronaldo Campus, e que tem a companhia do estádio Madeira, do Nacional.

Campo municipal da Ribeira Brava

Nos finais dos anos 60 perspectivava-se por aqui a construção de um campo de futebol, que haveria de concretizar-se mais tarde, e sendo então designado por almirante Américo Tomás, militar do Estado Novo.
Hoje o campo continua activo, e alindado e melhorado serve de casa ao clube local. A pouca distância deste histórico recinto, foi construído um excelente complexo desportivo, que é conhecido por Centro Desportivo da Madeira.


Há distância de mais de 40 anos, fica aqui um retrato “actual” dos campos da Madeira, que hoje estão acompanhados de muitos e excelentes novos recintos, que só por si merecem uma nova monografia.


2 comentários:

Eduardo Soares disse...

Esperança e Mocidade

Há 50 anos quando deixei a Camacha para vir para o Brasil, a Achada da Camacha era um campo de areão, cercado pelo casario. Tinha a casa do Professor Nóbrega que foi professor da minha mãe e meu professor. Tinha a venda do Sr. Guilherme que enchia aos domingos na hora em era distribuída a mala. Tinha a venda do Senhor Regedor que fazia o registro de nascimento de todos nós Camacheiros. Tinha a escola das Irmãs, reconhecida pela rigidez. E para os ingleses, tinha o Café Relógio no meio dos carvalhos. Voltei lá como turista em 89.

Mas a alegria mesmo, naquela época, era o jogo de bola no campo da Achada. Quem jogou e quem viu esses jogos no campo da Achada sabe que eles eram dignos de serem feitos num Maracanã lotado.

A propósito, gostaria de contribuir para a história do Esperança e do Mocidade, os dois clubes de jogo de bola da Camacha do fim do século XIX. A minha mãe, Rosarinha do Pedro da Mota, que nasceu em 1922, contou-me na década de 1950, quando eu era criança, que uma equipa era da Achadinha - estou a esquecer-me se era o Esperança - a outra era dos Casais de Além, e a minha mãe falou-me que havia muito entusiasmo e rivalidade, e curiosa acrescentou:

- Quem sabe esses jogadores não embarcaram todos, e, dos que ficaram na Camacha, pode ser que algum filho ou neto deles saiba deles e da história desses jogos.

A minha mãe deixou-me viva e clara a existência dessas equipas e, no meu entusiasmo, eu queria ter visto essas equipas a jogar.

Minha mãe sabia muito bem dessas equipas porque na década de 1930 Rosarinha dividia o tempo em casa com a avó Ludovina de Sousa e com o balcão da mercearia do meu avô Pedro da Mota, a Brisa Lusitana, junto com Airinhos, Josezinho e Eduardinho, meus queridos tios. Era a venda do avô Pedro da Mota. Rosarinha gostava de conversar com todos os fregueses. A pedido se punha a ler e responder a carta dos embarcados, e lá conhecia toda a gente da Camacha e conhecia a história de muitas famílias e as histórias do lugar.

Os anos passaram. Nos idos de 1980, aqui no Brasil, numa dessas tardes habituais em que eu com a minha esposa visitávamos a minha mãe, junto com os meus filhos brasileiros, o Alexandre e o César, ela voltou a me falar:

- Os que jogavam bola no Esperança e no Mocidade eram os antigos, já não eram os fregueses da mercearia na década 1930.

No meu entender, a expressão “os antigos” referia-se aos avós da geração daquela época de 1930. Nunca mais se falou disso. Agora que eu sou “antigo” deixo aqui o meu registro. Talvez nem todos os bisnetos daquela geração já esqueceram as histórias...

A minha imaginação de criança desenhou os jogadores da Achadinha a descer pelo caminho que separa os dois sítios. Vinham apressados a rir e a conversar e um, desembaraçado, com a bola na mão. Esses heróis imaginários da minha infância ficaram na minha memória. Disso não se esquece nunca. Eu até perguntei à minha mãe qual era a cor das camisolas do Esperança e do Mocidade. Ela não sabia. Mas eu, na minha imaginação, pintei a camisola da Achadinha com faixas de preto e amarelo. Era o meu time, porque a minha mãe era da Achadinha.

A minha memória tem registrada, desde a infância, a imaginação que eu criei desses jogadores a caminho da Achada para o jogo Esperança x Mocidade. Não percam.

Eduardo de Sousa Soares – emigrante no Brasil

Filho de Rosarinha de Pedro da Mota (da Camacha) e de José do China das Amoreiras (do Caniço)

victor sousa disse...

o futebol é isto. Pretexto para muitas histórias, ricas e saborosas, contadas na primeira pessoa, mas com entrada franca. Conte-nos mais...