Futebol Saudade

Desde que, há mais de 100 anos, se fez o primeiro campeonato de futebol em Portugal, que a "passerelle", que é a vida desportiva, viu desfilar milhares de clubes.
Uns ainda hoje existem, pujantes e vigorosos até, outros, embora perdendo protagonismo, ainda resistem. Mas muitos ficaram pelo caminho.
Passaram ao futsal, deixaram o desporto, ou fecharam mesmo as portas. É dos que partiram (e não só), que aqui vamos tentar deixar a memória.




domingo, 3 de março de 2019

Vila Franca de Xira no futebol.



No futebol, e dedicando-se a competições oficiais foram, de raiz, 3 as colectividades inscritas.
Todas fizeram o seu baptismo no futebol oficial em 1933/34, quando a AF de Lisboa criou uma zona “Vila Franca”, no seu futebol de Promoção.
Durante 5 épocas foi assim que se jogou, mas os clubes queriam mais, e pediram à AF que criasse um Campeonato do Ribatejo.
É assim que o Operário Vilafranquense (1913), Águia Vilafranquense (1924), – filial do Belenenses – e Sport Lisboa (1930), a que se junta o Povoense e Alhandra, estreiam esta fórmula inter-distritos, que se manteria até 1946/47.
Mas quem organizou este campeonato foi a associação de Santarém, a quem esta aderência servia às mil maravilhas, já que os clubes usualmente na zona Norte (Tomar e concelhos vizinhos) boicotaram a competição, dada a decisão da associação distrital pretender fazer sempre as finais em Santarém.
Foram quase 10 épocas a jogar fora do distrito, mas em 1947/48 os clubes regressam, definitivamente a Lisboa.
As razões de tal nunca ficaram claras. O jornal de Vila Franca diz que foi pressão dos Cimentos Tejo, estes falam na imposição de directrizes superiores (VR 20 SET, pg 3 e 4 OUT, pg 8, e 11 OUT 1947, pg 4), e outros ainda dizem que a federação aceitava qualquer decisão, desde que ela fosse unânime aos clubes. O facto é que todos foram para Lisboa, incluindo os 2 então existentes em Vila Franca.


Estes clubes passam então à AF do seu distrito, e jogam-no até à época de 1956/57.
É neste ano de 57 que decidem juntar-se com mais outras colectividades locais, - Ginásio Vilafranquense e Hóquei Clube - fazendo assim nascer a União Vilafranquense.

Mas o futebol em Vila Franca é muito mais rico de incidências. Desde logo porque contou com muitos mais clubes, que a partir de 1928 animaram a Liga de Foot-Ball de Vila Franca, e emprestaram a esta muita vivacidade.
Um ano antes, reorganiza-se o Grupo Desportivo dos Empregados no Comércio, que se propunha dinamizar o futebol na vila, que havia caído num sono de muitos anos.
O único “campo” então existente era o campo da Feira. Chamava-lhe “Campo da Aclamação da República” o jornal local, “Vida Ribatejana”.
Foi aqui, em Janeiro de 1928, que se jogou um torneio organizado pelo Comércio, e que contou com (1):

União de Comércio & Indústria Vilafranquense
Operário Vilafranquense
Águia Vilafranquense
Invencível
Leais

Este movimento leva ao ressurgimento de outros clubes, parados entretanto. É o caso do Operário (ver VR 18 NOV 1928, pg 3).


Em Dezembro deste ano organiza a Liga o seu primeiro campeonato, com:

Grupo de Foot-Ball Operário Vilafranquense
União Estrela Marítima Vilafranquense
Águia Sport Clube Vilafranquense
Unido Vilafranquense.


Campeonato da Liga de Vila Franca

J
V
E
D
M
S
P
Marítimo
6
5
1
0
13
3
17
Águia
6
4
1
1
13
8
15
Operário
6
1
0
5
5
12
8
Unido
6
1
0
5
10
18
8



Entretanto começa o Operário a movimentar-se para ter um campo de jogo.
(ver VR 13 JAN 1929, pg 3, 9 MAR pg3 e 23 MAR 1930, pg 3).

O Operário de Vila Franca convida o Benfica para um jogo amigável, e na sequência disso pede a filiação neste clube. O Benfica impõe certas condições que o Operário não aceita, e acaba por ser o Unido a aceitá-las e filiar-se naquele clube de Lisboa.
Nasce assim o Sport Lisboa e Vila Franca, a partir do Unido Vilafranquense, aparecido em 1928.
(ver VR 17 NOV 1929, pg 4)
Neste panorama dinâmico do futebol na vila, surge o Sporting Vilafranquense. Faz muitos jogos amigáveis, e após um deles, o jornalista do Vida Ribatejana diz que de “vilafranquense” tem muito pouco, tantos são os jogadores do Sporting de Lisboa!

Entretanto o Operário consegue arrendar um terreno para o seu campo de futebol. É um terreno de uma proprietária local, Júlia Paiva.
O campo é inaugurado em Abril de 1930 (ver VR 27 ABR 1930, pg2), e fica conhecido pelo campo de S. Sebastião.

À época, já o Cevadeiro, amplo terreno camarário, tinha uma intensa utilização, albergando exposições, provas hípicas e outras actividades.
Mas este campo do Operário, cedo ficou ameaçado. A câmara municipal sonhava com o prolongamento da rua Palha Blanco até Povos, para além da cerca onde estava o campo, fazendo-a convergir na estrada nacional, por fora da Quinta do Borrecho. Alvitra-se então o uso do Cevadeiro (VR 29 JAN 1933, pg1).

A localização do campo fica mais clara, quando mais tarde se organiza uma prova atlética com partida do campo de S. Sebastião, e o jornal (Via Ribatejana), dá conta do percurso, onde se saía do campo pelo portão do Largo do Mártir Santo, rua do Matadouro (2), rua Sacadura Cabral, rua Miguel Bombarda, Fonte Nova e Fonte Grande.
Hoje, nas imediações da igreja de S. Sebastião, ainda se encontra a travessa do Mártir Santo, pelo que o campo seria vizinho desta igreja.

Mas a vida desportiva segue, sofrendo um revés, quando o Governo Civil em Fevereiro de 1933 manda fechar as sedes de todos os clubes do concelho. Só escapa o Operário.
Entretanto em Agosto, a Associação de Futebol de Lisboa convida os clubes locais para participarem na promoção. Nesta altura só o Alhandra e o Operário estão devidamente legalizados. Mas de seguida. O Águia, que se filia no Belenenses, também se junta a estes candidatos, grupo que fica completo com o Sport Lisboa de Vila Franca, iniciando-se assim o campeonato em 26 de Novembro.
O Operário sagrava-se campeão, circunstância que repetiu por mais  vezes.
Na Póvoa de Santa Iria estava (Outubro de 1935) em formação o Sporting Clube Povoense, que jogaria nesta Promoção.

Mas o entusiasmo pelo futebol era grande na vila, e  5 clubes do concelho (Águia, Operário, Sport Lisboa, Alhandra e Povoense) pediram em Julho de 1938, à AF de Lisboa, que esta organizasse o Campeonato do Ribatejo, conjuntamente com os clubes de Santarém (VR 15 JUL 1938, pg 4).

A 7 de Outubro em AG, consuma-se a filiação destes clubes na AF de Santarém, disputando aquilo que o jornal chamou de 2ª divisão (VR 16 OUT 1938, pg 3).

Quase sem se dar por isso, o Águia inaugura o seu campo de jogos, no Bairro do Cerrado (VR 6 NOV 1938, pg 3).

Em 1940 começam finalmente, as obras de prolongamento da rua Palha Blanco, pelo que no fim do ano o Operário deixa o campo, indo ocupar um espaço que foi adaptado a campo, no Cevadeiro. Eram os alicerces do estádio actual. (ver VR 1 DEZ 1940, pg 4)

Durante algumas épocas o futebol na vila fica entregue ao Operário e ao Águia, cada um em seu campo.
Mas em 1955 (VR 9 ABR 1955, pg ½), ressuscitando uma ideia nascida já em 1943, começa a falar-se de fusão! (VR  11 FEV 1956, pg5).
É então quando a 12 de Abril de 1957, as 4 colectividades da vila (3), dão origem ao “Sport União Vilafranquense”.

Mas como sempre, o Estado tinha de meter o nariz, e então a DGD “sugere” a alteração do nome para União Desportiva Vilafranquense.
(ver VR 20 ABR 1957, pg 1/12)

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(1)   – à altura, o associativismo era pujante. Para além dos clubes de futebol, que por vezes se envolviam noutras actividades, existiam ainda, dedicando-se em exclusivo a actividades recreativas e culturais:

Grémio Artístico
Club Vilafranquense
Grupo Dramático Afonso de Araújo

(2)   – em 1957 inaugura-se um novo matadouro, pelo que esta rua é a rua do primitivo.


(3) – Águia Vilafranquense, Operário Vilafranquense, Ginásio Vilafranquense e Hóquei Vilafranquense



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